quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sobre...o Desemprego.


Coisa estranha, o desemprego...ainda na escola, começou por ser apenas um conceito aprendido com a professora de Economia.

Na faculdade, foi nas cadeiras que nos introduziram e aprofundaram os temas da procura, oferta, inflação, moeda...que se voltou a falar de desemprego. De forma distante, pois no início dos anos 90 quase todos os colegas mais velhos iam saindo da faculdade para o mercado de trabalho com toda a naturalidade. O prof. César das Neves dava-nos verdadeiras lições, com muita teoria alicerçada em boas doses de humor. No meio de muitas curvas, nomes, tabelas e gráficos, aprendi que havia uma coisa chamada "taxa de desemprego natural" - se bem me recordo, diz respeito às pessoas em trânsito entre empregos, por exemplo...

Entretanto, raramente o desemprego era notícia, a não ser quando se ouviam ecos da situação em Espanha. Mais tarde, bem mais tarde, lentamente, começou a introduzir-se no léxico dos portugueses...de todos, já não apenas dos que, como eu, o tinham estudado e o acompanham nos jornais económicos, ou dos economistas e comentadores. Pouco a pouco, deixámos de ser um país com baixas taxas e começámos a saltar lugares nos rankings da UE - infelizmente!

Começam a surgir com cada vez mais frequência notícias de despedimentos colectivos ou em número significativo. De encerramento de empresas. De downsizings e lay-off's. E quando as bolhas dos inícios de 2000 já eram passado e a entrada no euro parecia consolidada, surgiu uma crise maior, global, como um tsunami. Em que as casas de madeira são levadas pela força das águas sem complacência. E Portugal, pouco mais sólido do que isso, sentiu e sente essa força.

Neste momento, o desemprego não é uma estatística longínqua. Já são mais de 1 milhão de portugueses. São casais. São filhos. São pais, mães, irmãos, primos. São amigos, ex-colegas, vizinhos.
 
Como muitas coisas na vida, há um lado positivo: até há bem pouco tempo, um desempregado (em Portugal) era quase um proscrito, um falhado, alguém que tinha de certeza um qualquer problema. Hoje, por serem tantos e tão bons, não têm de perder a face.

Mas não deixam de perder, muito. Ilustro com um episódio que me tocou: há poucas semanas almocei com um amigo que, soubera entretanto, foi despedido no dia 27 de Dezembro. Contou-me como sucedeu (não vale a pena contar a frieza do processo...) e tentei animá-lo, dizendo-lhe que não tem de perder a auto-estima e que não passou a ser pior pessoa ou profissional pelo sucedido. Concordou comigo, mas logo me disse:

- Deixa-me contar-te uma história...

- Força! - repliquei - Conta...

E então ele contou:

- Quando ganhei coragem para contar em casa, tentei explicar ao meu filho que ia estar sem trabalho, sem saber que palavras usar nem o que dizer. Ele foi ouvindo, sem perceber bem o alcance das palavras do pai.

Um pouco mais tarde, seguramente com a cabeça a tentar digerir e interpretar algo tão confuso, interpela-me nos seguintes termos:

- Pai, estás sempre a dizer-me para ser bom na escola, para fazer bem os trabalhos, para ser bom no futebol e em tudo o que faço... Tu já não és bom?

 
Perdemos todos, quando estes sonhos se desfazem assim. É mais violento e duro do que todas as questões materiais que não as da sobrevivência. E não é só com os outros. Temos, todos, de lutar contra isto. Cada um de nós.
 
Gonçalo Parreira