Coisa estranha, o desemprego...ainda na escola, começou por ser apenas um
conceito aprendido com a professora de Economia.
Na faculdade, foi
nas cadeiras que nos introduziram e aprofundaram os temas da procura, oferta,
inflação, moeda...que se voltou a falar de desemprego. De forma distante, pois no início dos anos 90 quase
todos os colegas mais velhos iam saindo da faculdade para o mercado de trabalho
com toda a naturalidade. O prof. César das Neves dava-nos verdadeiras lições,
com muita teoria alicerçada em boas doses de humor. No meio de muitas curvas,
nomes, tabelas e gráficos, aprendi que havia uma coisa chamada "taxa de
desemprego natural" - se bem me recordo, diz respeito às pessoas em
trânsito entre empregos, por exemplo...
Entretanto, raramente o desemprego era
notícia, a não ser quando se ouviam ecos da situação em Espanha. Mais tarde, bem mais tarde,
lentamente, começou a introduzir-se no léxico dos portugueses...de todos, já
não apenas dos que, como eu, o tinham estudado e o acompanham nos jornais económicos,
ou dos economistas e comentadores. Pouco a pouco, deixámos de ser um país com
baixas taxas e começámos a saltar lugares nos rankings da UE - infelizmente!
Começam a surgir com cada vez mais frequência notícias de
despedimentos colectivos ou em número significativo. De encerramento de
empresas. De downsizings e lay-off's. E quando as bolhas dos inícios de 2000 já
eram passado e a entrada no euro parecia consolidada, surgiu uma crise maior,
global, como um tsunami. Em que as casas de madeira são levadas pela força das
águas sem complacência. E Portugal, pouco mais sólido do que isso, sentiu e
sente essa força.
Neste momento, o desemprego não é uma estatística
longínqua. Já são mais de 1 milhão de portugueses. São casais. São filhos. São
pais, mães, irmãos, primos. São amigos, ex-colegas, vizinhos.
Como muitas coisas na
vida, há um lado positivo: até há bem pouco tempo, um desempregado (em
Portugal) era quase um proscrito, um falhado, alguém que tinha de certeza um
qualquer problema. Hoje, por serem tantos e tão bons, não têm de perder a face.
Mas não deixam de perder, muito. Ilustro com um episódio
que me tocou: há poucas semanas almocei com um amigo que, soubera entretanto,
foi despedido no dia 27 de Dezembro. Contou-me como sucedeu (não vale a pena
contar a frieza do processo...) e tentei animá-lo, dizendo-lhe que não tem de
perder a auto-estima e que não passou a ser pior pessoa ou profissional pelo
sucedido. Concordou comigo, mas logo me disse:
- Deixa-me contar-te uma história...
- Força! - repliquei - Conta...
E então ele contou:
- Quando ganhei coragem para contar em casa, tentei
explicar ao meu filho que ia estar sem trabalho, sem saber que palavras
usar nem o que dizer. Ele foi ouvindo, sem perceber bem o alcance das palavras
do pai.
Um pouco mais tarde, seguramente com a cabeça a tentar
digerir e interpretar algo tão confuso, interpela-me nos seguintes termos:
- Pai, estás sempre a dizer-me para ser bom na escola,
para fazer bem os trabalhos, para ser bom no futebol e em tudo o que faço... Tu
já não és bom?
Gonçalo Parreira